29 de novembro de 2005

8ª Mostra de Actividades:
a exposição virtual

Terminada a 8ª Mostra de Actividades da AAPEF, que decorreu entre 14 e 25 de Novembro no Átrio dos Paços do Concelho do Funchal, quem não teve oportunidade de a visitar, ou quem quiser simplesmente recordar, pode a partir de hoje ver aqui os cartazes que estiveram expostos.

Para apreciar uma ampliação basta clicar no cartaz que pretender.










23 de novembro de 2005

Pico do Areeiro
Oásis num Deserto de Montanha



Em Março de 1994, a Câmara do Funchal criou o Parque Ecológico do Funchal, integrando nesta unidade especial de gestão uma vasta propriedade municipal com cerca de 1000 hectares, que ocupa a zona montanhosa sobranceira à cidade entre a Levada dos Tornos (altitude=600 m) e as proximidades do marco geodésico do Pico do Areeiro (1816 m).

A instituição do Parque marcou o fim dum período de quase abandono duma importante parcela do chão do concelho e o início dum novo ciclo de gestão do seu património natural. Em Outubro de 1995, contra ventos e marés, ficou concluído o duro processo de retirada das cabras e ovelhas. Extinto o pastoreio, que tinha contribuído para a desertificação das terras entre o Chão da Lagoa e o Pico do Areeiro, começava a longa etapa da recuperação da paisagem e da diversidade biológica das terras altas do Parque. A tarefa não se afigurava fácil, mas era enorme a vontade de levar avante um processo fundamental para a segurança dos populações e a melhoria dos recursos hídricos. Só o retorno da formação vegetal indígena poderá travar a erosão, diminuir os riscos de cheias catastróficas (aluviões) e aumentar os caudais das nascentes.

O sucesso do projecto passava, e passa, pelo empenhamento dos cidadãos nas tarefas de plantação e manutenção de muitos milhares de plantas em solos esqueléticos e num ambiente climático hostil. O trabalho voluntário afigurava-se como um precioso complemento para as múltiplas actividades que estavam sendo desenvolvidas pela limitada equipa de funcionários do Parque.

Foi assim que, a 11 de Julho de 1996, um grupo de 11 pessoas deu corpo à Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal. O pequeno núcleo inicial foi crescendo e hoje a Associação conta com cerca de 400 sócios. Em Setembro de 2001, já com uma grande e bem preparada equipa de trabalho, a Associação solicitou à Câmara autorização para concentrar a sua actividade na zona mais alta do Parque, na área do Pico Areeiro, entre os 1700 e os 1800 metros de altitude. O risco era grande, mas maior era o desafio de criar um oásis num deserto de montanha. Ali a autorregeneração era praticamente impossível porque todo o coberto vegetal tinha desaparecido e nalguns espaços já nem solo havia. Onde a rocha madre aflorava só com a criação dum novo solo em cada cova seria possível instalar as plantas pioneiras para uma nova sucessão biológica.



Em Outubro de 2001 começaram os trabalhos. Pelo menos num sábado de cada mês, 50 a 70 Amigos do Parque trabalham na plantação e manutenção de espécies adequadas às características daquele ecossistema. De Outubro a Março decorre o período de plantação, sendo em cada jornada introduzidas entre 400 a 600 plantas. Entre Abril e Setembro são executados trabalhos de manutenção e regas. Para que as plantas aproveitem da melhor maneira a água e sejam menos afectadas pelas variações de temperatura, as caldeiras são cobertas com uma camada de estilha e para que o vento não moleste as plantinhas são construídas protecções de pedra. Só assim foi possível garantir uma taxa de sucesso superior a 70% num ambiente particularmente difícil.

Cerca de 6 ha que estavam completamente desertificados há pouco mais de três anos, começam a ostentar as cores da biodiversidade, graças ao trabalho voluntário e persistente dos Amigos do Parque Ecológico. A variegada floração de três arbustos endémicos da Madeira — piorno (Teline maderensis), massaroco (Echium candicans), estreleira (Argyranthemum pinnatifidum ssp. pinnatifidum) — e duma herbácea macaronésica — andríala (Andryala glandulosa ssp. varia) — constitui a primeira vitória na longa batalha de recuperação dum deserto pedregoso, criado durante cinco séculos de cortes de lenhas, incêndios e pastoreio intensivo.



A área onde a Associação está a intervir deverá funcionar como banco genético e foco difusor das plantas indígenas para as montanhas envolventes. O vento alísio tem-se encarregado de espalhar as sementes de massaroco, piorno e estreleira, prevendo-se que em 2005 se associem as sementes das urzes (Erica maderensis; Erica arborea).

Entretanto, largas centenas de loureiros (Laurus azorica) e cedros-da-madeira (Juniperus cedrus) crescem com aspecto suadável, o que confirma a justeza da sua selecção como as espécies arbóreas adequadas ao ambiente climático da alta montanha, caracterizado por expressivas amplitudes térmicas diurnas e anuais, períodos de ventos fortes, formação de geadas, precipitação de neve e granizo, grande variação da humidade atmosférica e do solo entre o Inverno e o Verão.

Para além das espécies plantadas começaram a surgir alguns endemismos cujas sementes ali chegaram transportadas pelo vento. Em Junho de 2004, pela primeira vez, floriram duas armérias-da-madeira (Armeria maderensis) e várias leitugas (Tolpis macrohiza) abriram as cimeiras de flores amarelas.

Aproveitando os esconderijos criados pela nova vegetação, os casais de corre-caminhos (Anthus berthelotii maderensis) escolhem aquele espaço para nidificar. No princípio de Junho de 2004 foram encontrados dois ninhos com três ovos cada desta subespécie madeirense e no fim do mês três pequenos pássaros ensaiavam os primeiros voos. Paralelamente, a Associação desenvolve um programa educativo para crianças e adolescentes pobres ou com problemas de integração social, que partilham com os menos jovens, um sábado em cada mês, o estimulante desafio de recuperar a biodiversidade que existia na cordilheira central, quando a ilha começou a ser povoada pelos portugueses na primeira metade do século XV.



Desde a primeira hora, a Associação dos Amigos do Parque Ecológico tem contado com a colaboração da Câmara Municipal, que cede autocarros para o transporte dos participantes nas diferentes actividades, autotanques para a rega e disponibiliza plantas produzidas no viveiro da Ribeira das Cales. Em 2003, por falta de capacidade deste viveiro, foram solicitadas plantas à Direcção Regional de Florestas, que permitiram cumprir o plano anual de plantação.

O apoio financeiro das empresas patrocinadoras e em particular da Seacology — Organização Não Governamental com sede nos EUA, vocacionada para a preservação do ambiente e da cultura nas ilhas — tem sido precioso para a realização do nosso projecto, que é pioneiro na Madeira e poderá ser útil para outras ilhas montanhosas vítimas de processo de desertificação semelhantes.

Raimundo Quintal

in “Liberne” - revista trimestral - Liga para a Protecção da Natureza - Primavera/Verão 2005

Campo de Educação Ambiental
do Cabeço da Lenha



A Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal, está a iniciar o projecto de criação dum Campo de Educação Ambiental no rebordo ENE da Achada Grande, entre o Poiso e o Pico do Areeiro, num terreno com uma área 53.500 m2 que confronta com o Parque Ecológico, entre os 1500 e os 1535 metros de altitude.

O terreno em causa, conhecido por Montado do Cabeço da Lenha, foi recentemente adquirido ao Dr. Rui Silva, conhecido médico do Funchal, que durante décadas dedicou especial atenção à defesa do património natural da cordilheira central da Madeira. O pastoreio intensivo e os fogos empobreceram o coberto vegetal, necessitando dum trabalho de reflorestação semelhante ao que estamos a fazer desde Outubro de 2001 com visível sucesso junto ao Pico do Areeiro, na zona mais alta do Parque Ecológico.



O projecto, para além da reflorestação com espécies indígenas feita exclusivamente em regime de voluntariado, engloba um circuito pedonal de descoberta da natureza com informação simples mas com rigor científico sobre a origem e evolução geomorfológica da serra encimada pelo Pico do Areeiro, das características climáticas das terras altas, da flora do último andar fitoclimático, da avifauna e dos insectos característicos daquelas paragens.

Pretendemos, igualmente com este projecto, despertar as consciências para a profunda relação entre a floresta e os recursos hídricos, demonstrando no terreno como é possível aumentar consideravelmente a infiltração da água e diminuir os riscos de cheias.

Na propriedade existe uma pequena casa, edificada em 1967, que está a ser recuperada para funcionar como centro de educação ambiental e que em homenagem ao seu antigo proprietário ficará perpetuada com a designação de “Cabana Dr. Rui Silva”.



19 de novembro de 2005

Passeio pedestre:
Boaventura - Arco de S. Jorge
(19-11-2005)


Desta vez foram cerca de 30 sócios e mais alguns amigos que se juntaram para um percurso que pretendia dar a conhecer os primeiros quilómetros da Levada dos Tornos, da sua origem na vizinhança do Lombo do Urzal até à Fajã do Penedo.

No entanto, o mau tempo trazido pelos ventos fortes de sudoeste comprometeu este programa, o que acabou por não ser um problema uma vez que logo à partida do Funchal ficámos a saber que teríamos outras alternativas.

Na primeira parte da viagem, foi abordada a problemática das alterações aos leitos de alguns cursos de água, nomeadamente obras recentes que foram feitas nas margens da Ribeira Brava e da Ribeira de S. Vicente, que tivemos oportunidade de apreciar in loco.

Chegados a S. Vicente o grupo pode finalmente deixar o autocarro e caminhar estrada acima até à Capelinha, no topo do Pico da Cova. O panorama que daqui se abrange permite uma visão ampla sobre o deslumbrante vale de S. Vicente, o que foi o ponto de partida para falar da sua história geológica. Na sequência de uma erupção vulcânica ocorrida há pouco menos de 900.000 anos no rebordo do Paul da Serra, as escoadas lávicas resultantes desceram até à foz da ribeira, bloqueando a sua saída para o mar.

Hoje podemos ver como o trabalho ininterrupto das águas da Ribeira acabou por furar através do basalto e recuperar o acesso ao mar.

Pelo caminho fomos encontrando diversas espécies da flora e vegetação autóctones. Também uma infestante que se tem dado muito bem por aquela zona e vai alastrando pelos campos vizinhos da Capelinha. Talvez também por ser bonita.


Azevinho (Ilex canariensis) - pequena árvore indígena Bandeira Espanhola (Lantana camara) - arbusto originário da América do Sul
Foguetes (Kniphofia x uvaria) - herbácea natural da África do Sul Anoneira (Annona cherimola) - árvore indígena do Equador e Peru


Etapa seguinte: perante a incerteza das condições meteorológicas (embora o Sol brilhasse a espaços na costa Norte, caía um temporal sobre a vertente Sul da ilha) e o anúncio de que um aluimento sobre a levada dos Tornos numa secção do percurso reduziria a caminhada ao curto trajecto até à sua origem, acabou por ser escolhida uma das alternativas — caminhar pela antiga vereda da Entrosa, que liga a Boaventura ao Arco de S. Jorge, atravessando a velha ponte sobre a Ribeira do Porco.






Incenseiro (Pittosporum undulatum) - originária da Austrália e apesar da sua beleza é infestante na Madeira  





Chegados ao Arco de São Jorge, encontrámos um novo ponto de interesse na costa Norte — o Museu do Vinho e da Vinha. A visita que efectuámos desenvolve-se noutro artigo.

Voltando à estrada, dirigimo-nos ao nosso destino final, mesmo ali ao lado — os jardins da Quinta do Arco. No entanto, o mesmo S. Pedro que se revelou tão benevolente connosco ao longo do dia, acabou por nos “cortar o crédito” à entrada do roseiral presenteando-nos com um pequeno dilúvio que nos obrigou a abreviar a visita.


Lycianthes rantonnettii - flor sem designação vulgar, é natural da América do Sul. Papaieira (Caryca papaya) - árvore da América do Sul


Sugestão de Visita:
Museu do Vinho e da Vinha
(Arco de São Jorge)



Durante o percurso pedestre deste fim de semana tivemos a oportunidade de descobrir dois novos pontos de interesse no Arco de São Jorge.

São o “Museu do Vinho e da Vinha” — misto de museu e campo experimental de viticultura, nos terrenos que rodeiam o edifício — e “Doces Tradições” — que tenta preservar as artes e tradições da freguesia através da produção de pão caseiro e coisas doces (bolos, broas e compotas) e artesanato (bordado da Madeira, vimes e arranjos florais, entre outros).






Os interessados poderão encontrar mais informação no site da Casa do Povo do Arco de São Jorge